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Fim do Desenrola gerou 9 milhões de novos inadimplentes no Brasil

Fim do Desenrola gerou 9 milhões de novos inadimplentes no Brasil

  • 09/04/2026



     

    Quase dois anos após o fim do Desenrola, programa federal de renegociação de dívidas lançado em julho de 2023, o Brasil passou a conviver com mais 9 milhões de novos inadimplentes. De acordo com dados da Serasa, o número de pessoas com contas atrasadas subiu de 72,5 milhões, em maio de 2024, para 81,7 milhões em 2026, levando o país ao maior patamar de calote do consumidor desde 2012.

    A piora dos indicadores reacendeu o debate no governo sobre a possibilidade de reeditar uma iniciativa voltada à renegociação de dívidas. Para especialistas ouvidos na matéria original, no entanto, o programa anterior teve efeito limitado por atacar apenas os sintomas do superendividamento, sem enfrentar suas causas estruturais.

    Criado como uma promessa de campanha do governo Lula, o Desenrola surgiu com o objetivo de conter a inadimplência crescente no período pós-pandemia. Naquele momento, o país registrava 71,4 milhões de inadimplentes, segundo a Serasa, enquanto a inadimplência era de 4,14%, índice que mede contas com mais de 90 dias em atraso.

    Ao longo de cerca de 10 meses de duração, o programa conseguiu reduzir o número de inadimplentes de baixa renda, público prioritário da política. Entre os brasileiros que ganhavam até dois salários mínimos ou estavam inscritos no Cadastro Único, o total caiu de 25,2 milhões para 23,1 milhões quando o programa foi encerrado, em maio de 2024.

    Apesar disso, o número total de devedores, considerando todas as faixas de renda, permaneceu elevado, chegando a 72,5 milhões, enquanto o índice de inadimplência acima de 90 dias recuou para 3,69%. Segundo especialistas, o programa ajudou a conter um avanço ainda maior do superendividamento naquele momento, mas esse efeito foi pontual.

    Passado esse alívio temporário, a inadimplência voltou a crescer com força. O movimento, segundo a reportagem original, foi impulsionado por juros cada vez maiores, oferta agressiva de crédito pelas instituições financeiras e pela explosão das bets. Com isso, o número de inadimplentes chegou a quase 82 milhões de indivíduos em fevereiro deste ano, enquanto a inadimplência da carteira de crédito total das pessoas físicas, incluindo os empréstimos imobiliários, atingiu 5,24%, o maior nível em 14 anos.

    Especialistas apontam efeito temporário do Desenrola
    Para a economista Ione Amorim, consultora de serviços financeiros do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor), o governo adotou uma solução emergencial que não interrompeu o processo de endividamento da população.

    "O governo tomou uma medida paliativa, que não interrompeu o ciclo que promove o endividamento", diz a economista. "Parte dos consumidores saiu temporariamente das estatísticas, mas isso não quer dizer que não estavam mais endividados."

    Na avaliação de Ione Amorim, a proposta do Desenrola teve como foco reabilitar financeiramente os brasileiros para estimular o consumo. Ela lembra que a primeira medida do programa foi retirar dos cadastros dos birôs de crédito os negativados com dívidas de até R$ 100.

    "Quem teve o nome limpo foi pegar crédito, mas houve um rebote, com a inadimplência voltando a crescer de forma acelerada", afirma.

    Atualmente, a maior parte das dívidas dos consumidores brasileiros está concentrada nos bancos, especialmente no cartão de crédito, que representa 26,7% do total, segundo dados da Serasa. Em seguida aparecem as contas de consumo, como água e luz, com 21,3%, e as dívidas com financeiras, que somam 20,3%.

    Programa atendeu 15 milhões, abaixo da previsão inicial
    Quando foi encerrado, o Desenrola havia atendido 15 milhões de pessoas, com renegociação de R$ 53,2 bilhões em dívidas. Por meio de sua assessoria de imprensa, o Ministério da Fazenda afirmou que a pasta avalia que o programa atingiu seu objetivo.

    "O valor negociado corresponde a 0,5% do Produto Interno Bruto", afirmou o ministério.

    Ainda assim, o resultado ficou abaixo da previsão preliminar, que estimava alcançar até 30 milhões de indivíduos. Na avaliação de especialistas citados na reportagem original, o desempenho inferior ao esperado decorreu principalmente de erros de implementação, sobretudo na segunda fase do programa.

    A primeira fase concentrou-se nos devedores com renda de até R$ 20 mil, que puderam renegociar débitos diretamente com as instituições financeiras. Já a segunda etapa, voltada à população de baixa renda, exigia que os inadimplentes acessassem a plataforma digital criada para o programa.

    Essa exigência acabou se tornando uma barreira de acesso. Inicialmente, a plataforma demandava que o devedor tivesse conta ouro ou prata no portal Gov.br. Depois, a exigência foi flexibilizada para contas do nível bronze.

    Plataforma digital dificultou adesão
    Para Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV, a exigência de níveis mais altos de autenticação atrasou a adesão dos devedores.

    "Isso deixou a adesão mais lenta", aponta.

    Entre os aspectos positivos do programa, Gonzalez menciona a limitação da taxa de juros do crédito renegociado e a criação da plataforma pública para renegociação de dívidas, que poderá ser utilizada futuramente. Ainda assim, ele afirma que o Desenrola não demonstrou preocupação suficiente com os fatores que alimentam o superendividamento no país.

    "Não me parece que houve uma preocupação com as causas estruturais do superendividamento", afirma.

    Segundo ele, o salto no número de endividados nos últimos anos pode ser explicado por uma ampliação da oferta de crédito, especialmente por meios digitais.

    "Hoje há uma combinação de mais atores atuando no mercado de crédito digital, oferecendo empréstimos de forma quase automática. Os juros altos são a cereja do bolo", diz.

    A mesma leitura é feita por André Sacconato, economista da FecomercioSP, que relaciona a piora do cenário a uma combinação entre oferta agressiva de crédito, baixa educação financeira e juros elevados.

    "Isso, somado à baixa educação financeira e altas taxas de juros, levou ao crescimento do endividamento."

    Juros mais altos agravam o superendividamento
    Para Fabio Bentes, economista-chefe da CNC (Confederação Nacional do Comércio), a alta recente do superendividamento tem como pano de fundo a elevação da taxa básica de juros.

    Segundo ele, a Selic subiu de 10,50% ao ano, patamar vigente quando o Desenrola foi encerrado, para 14,75% ao ano atualmente.

    Na avaliação do economista, o programa teve boa intenção, mas não foi suficiente para resolver o problema.

    "O Desenrola teve boas intenções, mas não resolveu o problema nem de longe. Quando o paciente tem uma doença grave e você dá uma aspirina para ele, não vai resolver", diz.

    O quadro reforça a percepção de que a inadimplência no país não é resultado apenas de dificuldades momentâneas de renda, mas também de um ambiente de crédito caro, de fácil contratação e com pouca proteção contra o comprometimento excessivo da renda das famílias.

    Governo estuda novo programa para renegociar dívidas caras
    Diante da piora dos indicadores, o Ministério da Fazenda estuda um novo programa de renegociação. Segundo a reportagem original, a proposta em análise tem como foco principal dívidas de modalidades mais caras, como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia.

    A ideia seria oferecer abatimentos de até 80% e refinanciamento do saldo restante. Especialistas, porém, avaliam que a nova renegociação pode repetir os mesmos problemas da experiência anterior caso mantenha foco apenas em uma solução emergencial.

    O governo também avalia a possibilidade de estabelecer contrapartidas para quem aderir ao novo programa federal. Entre as medidas em discussão estão uma restrição a apostas em bets e a exigência de realização de um curso de educação financeira, como mostrou a Folha.

    A proposta busca associar o alívio imediato ao estímulo a práticas de maior controle financeiro. Ainda assim, especialistas defendem que o debate também inclua mudanças mais amplas na regulação da concessão de crédito.

    Regulação do crédito digital entra no debate
    Na avaliação de Lauro Gonzalez, da FGV, uma das frentes necessárias para enfrentar o superendividamento é o aperfeiçoamento da regulação da oferta de crédito digital.

    "Quando um imóvel vai ser financiado, por exemplo, existe uma limitação do quanto o crédito vai representar da renda da pessoa. Essa limitação poderia ser pensada para outras modalidades."

    A observação reforça o entendimento de que políticas públicas voltadas à inadimplência precisam ir além da renegociação pontual e considerar mecanismos que reduzam a concessão excessiva de crédito em modalidades mais vulneráveis a juros altos e ao comprometimento da renda.

    Inadimplência segue em alta após fim do Desenrola
    O avanço de 72,5 milhões para 81,7 milhões de inadimplentes desde o encerramento do Desenrola mostra que o alívio promovido pelo programa foi temporário. Embora tenha reduzido o número de devedores no público-alvo e movimentado R$ 53,2 bilhões em renegociações, o programa não conteve a retomada acelerada da inadimplência.

    Na leitura dos especialistas citados na matéria original, fatores como juros elevados, expansão do crédito digital, baixa educação financeira e o impacto das bets ajudam a explicar o novo avanço do superendividamento no país.

    Com o governo estudando uma nova iniciativa, o debate agora se concentra em como evitar que uma nova rodada de renegociação repita limitações já observadas na experiência anterior.

    Fonte: Contábeis


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